Pesquisadores desenvolvem vacina personalizada contra o câncer de ovário

Fórmula contém células que estimulam sistema imune para combater o cancro e se mostrou eficaz em testes iniciais, aumentando a sobrevida das participantes em até dois anos

Postado em: 12/04/2018
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Geralmente descoberto em estágio avançado, o câncer de ovário é uma doença de difícil tratamento. Muitas pacientes que recebem a terapia padrão - cirurgia seguida de quimioterapia - não respondem às intervenções e ficam sem opções curativas. Em busca de novas possibilidades de abordagem médica, pesquisadores da Suíça, dos Estados Unidos e da Grécia desenvolveram uma vacina voltada para o tratamento personalizado dessas mulheres. A fórmula contém células que estimulam o sistema imune para combater o cancro e se mostrou eficaz em testes iniciais, aumentando a sobrevida das participantes em até dois anos. Os achados foram publicados na edição desta semana da revista Science Translational Medicine. 

A fórmula desenvolvida pelo grupo internacional é composta por células dendríticas ativadoras da resposta imune, moléculas que otimizam o sistema imunológico, retiradas do sangue da própria paciente. Após a coleta dessas estruturas, elas são expostas ao material tumoral, o que funciona como uma espécie de treinamento para que elas passem a identificar e a se infiltrar nos tumores. 

"Estávamos interessados em utilizar o tumor inteiro como fonte de antígeno para a vacinação, pois acreditamos que é o melhor tipo de estratégia, já que cada tumor é diferente. Usar o cancro como base para vacinar é uma abordagem em que acreditamos e apostamos neste estudo, o que também foi feito com base em nossas pesquisas anteriores sobre o mesmo tema", conta ao Correio Lana Kandalaft, pesquisadora do Hospital Universitário de Lausanne, na Suíça, e autora principal do estudo científico. 

A vacina foi aplicada em 25 pacientes com câncer de ovário recorrente e avançado, acompanhadas durante dois anos. Uma parte das participantes recebeu apenas a fórmula experimental. A outra, uma combinação da vacina com dois medicamentos que modulam o sistema imunológico: bevacizumabe e ciclofosfamida. 

Os resultados foram bastante positivos, na avaliação dos pesquisadores. Todas as 392 doses usadas foram bem toleradas pelas pacientes, que demonstraram respostas robustas de células-T (células do sistema imune) contra células tumorais. "A vacina impulsionou uma resposta imunológica, e esse aumento na reação se correlacionou com a melhora da sobrevida dessas pacientes", frisa a autora. 

As pacientes tratadas com a combinação da vacina e os dois medicamentos apresentaram os melhores resultados. Nesse caso, houve aumento de dois anos na taxa de sobrevida média, quando comparada à de mulheres tratadas apenas com bevacizumabe e ciclofosfamida. "Acreditamos que, apesar de os resultados serem preliminares, a vacina pode contribuir para tratamentos mais eficazes contra o câncer de ovário. O bevacizumabe e a ciclofosfamida são usados rotineiramente. Tudo o que fizemos foi adicionar a vacina. Isso significa que devemos ser capazes de integrar facilmente essa imunoterapia", acredita Lana Kandalaft. 

Para Adriana Castelo Moura, oncologista clínica do Hospital Santa Lúcia, em Brasília, e membro titular da Sociedade Brasileira de Oncologia (SBO), a pesquisa, além de tentar enfrentar um problema relevante de Saúde pública, utiliza uma estratégia que tem sido bastante explorada na área médica. "Temos várias pesquisas que investigam as vacinas para câncer e sabemos que o tumor de ovário é um dos cancros que menos respondem a terapias. As vacinas têm se mostrado promissoras nesse campo, temos casos de outros especialistas buscando o mesmo caminho. Pesquisadores da Universidade de Stanford já têm trabalhado nesse tipo de tratamento para o mesmo tipo de tumor", ilustra. 

A oncologista também destaca a busca por uma abordagem individualizada como outro grande trunfo do trabalho internacional.  "O tumor de uma pessoa não é igual ao de outra. Criar um tratamento personalizado pode mostrar mais eficácia", justifica. Para Adriana Castelo Moura, análises feitas com um número maior de pacientes poderão ajudar a avaliar, de forma mais profunda, os efeitos da vacina. "Essa é uma análise inicial, para avaliar a tolerância e a segurança da fórmula em pacientes. Trabalhos com populações maiores poderão esclarecer melhor", diz. 

Além de ampliar a amostra, a equipe internacional de cientistas deve testar outras alternativas para a solução em desenvolvimento. "Vamos tentar estender essa abordagem vacinal para pacientes com câncer de ovário em estágio inicial da doença, quando acreditamos que teremos ainda mais benefícios", adianta Lana Kandalaft. 

Pouco comum, mas agressivo 

Grande parte desses cancros são carcinomas epiteliais, que têm início na superfície do ovário. O outro tipo é o tumor maligno das células germinativas, que dão origem aos ovócitos, as células germinativas femininas. O Instituto Nacional de Câncer (Inca) considera que o câncer de ovário de baixa incidência. Para este ano, está prevista a descoberta de 6.150 casos no Brasil. O número mais recente de mortalidade é o de 2013, quando 3,283 mulheres morreram em decorrência da doença.

Fonte: CORREIO BRAZILIENSE

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